x

Pra não perder as novidades,

Escreve o seu email aí embaixo

Prometemos só aparecer na sua caixa de entrada quando realmente valer à pena ;)

9 de janeiro de 2018Wellbeing

Gravidez, parto e algumas verdades

Acho que os motivos óbvios gravídicos mais o cuidado que eu gostaria de ter com a temática foram suficientes para que eu só finalizasse esse post algumas semanas depois do meu filho nascer. Pensei bastante em como abordar o assunto de forma real sem deixar a leveza de lado mas, no fundo, tudo bem se as interpretações finais de cada um não estiverem de acordo com a minha expectativa. Tenho procurado, mais do que nunca, focar na liberdade de vivermos nossas experiências pessoais, sem generalizações ou regras (por mais árduo que isso tenha se provado), e esse é apenas um singelo relato da minha experiência.

Sempre consumi, ou pelo menos absorvi, informações bastante tranquilas em relação a esse período da vida feminina. Desde a minha mãe que teve três filhos sem quase nenhuma ajuda , até várias amigas que não se cansam de dizer o quanto a gravidez representou o melhor momento das suas vidas, eu definitivamente não fui preparada pra realidade que foi a minha experiência. Pra completar, acho que o fato de sempre ter achado todas as grávidas lindas, ter amamentado as minhas bonecas e chorar com toda e qualquer cena de parto (alô “Call the Midwife”!), não contribuiu muito para as idealizações que eu, sem saber, vinha construindo ao longo de uma vida. Oscilei (olá hormônios!) entre uma certa revolta e alguma vergonha quando ouvia perguntas ou relatos sobre a plenitude desse período. É claro que me senti poderosa e emocionada em vários momentos mas, de forma geral, a minha condição era muito mais de uma constante busca por algum equilíbrio em meio a uma avalanche do que qualquer outra coisa.

Tive uma gravidez super tranquila em relação à saúde (amém, amém, amém!), mas o fato é que a simples normalidade gestacional costuma nos impor alguns grandes incômodos. Tive bastante enjoo, azia, refluxo, acne, indisposição e dor muscular. Vi a minha vida sexual voar pela janela e acho que nunca tinha me sentido tão exausta em toda a minha vida (não, eu ainda não tinha um recém nascido pra cuidar nessa época) mas, ainda assim, acredito que já exista conteúdo mais do que suficiente sobre como lidar com esses tipos de desconfortos. A minha vontade tem sido mesmo a de abordar algumas outras dificuldade que extrapolam o plano físico e sobre as quais quase ninguém fala.

Já venho comentado bastante sobre uma busca pessoal-espiritual mais profunda que tem pautado a minha vida nos últimos tempos e, exatamente por isso, achava que não existiria momento mais adequado do que o atual pra gerar e receber uma nova vida. Na verdade, ainda tenho certeza de que o nosso filho não poderia ter chegado numa hora mais apropriada, acredito profundamente na ideia de que as coisas acontecem quando tem de acontecer. Mas eu não tinha noção de que aquele pouquinho de sutileza que eu tanto tinha trabalhado pra alcançar se esvairia de forma quase que imediata com a chegada daquele embriãozinho no meu corpo.

A responsabilidade pela formação de outro ser humano me bateu com muita força e, de repente, me senti na obrigação de lidar com uma bagunça emocional muito bem acomodada no fundo da gaveta do ainda-não-estou-afim-de-olhar-pra-isso. Busquei, com toda honestidade que pude, o real compromisso de um pai e uma mãe. Me abri para questões de repetição, projeção e aceitação. Questionei a saúde das minhas relações e olhei à fundo para a minha criança no intuito de separá-la um pouco melhor dessa outra tão indefesa que estava pra chegar. Precisei estar bastante reclusa e quieta afim de conseguir digerir e gerar tanta coisa ao mesmo tempo. Foi, sem dúvida, um cansativo processo de organização da casa.

E assim, quase que como num click, as minhas prioridades se delinearam como nunca antes. Só pode ter sido uma coisa biológica mesmo porque, de repente, me vi sem nenhum espaço pro que passou a sobrar. Perdi a disponibilidade pro que não me fazia bem mas, de alguma forma, sempre tinha achado que “deveria” lidar na minha vida. Entendi que o meu compromisso comigo era também o meu compromisso com o meu filho e, assim compreendi, de fato, a prática da auto preservação. Lindo né? Deveria ser. Mas acontece que, infelizmente o mundo ainda está tão fora de prumo que, fazer o que é melhor pra gente ainda é, erroneamente, visto como um grande ato de egoísmo. A partir disso, devo ter sido repreendida por quase todas as pessoas importantes da minha vida ao decidir não mais participar do que me causava mal estar. Foi bem aos pouquinhos, à base de muita introspecção, leitura e sessões de terapia, que me organizei e consegui lidar um pouco melhor com a não aceitação alheia.

E, como tudo o que é difícil pode ser mais ainda eu, que sempre acreditei e fui uma entusiasta dos partos mais naturais possíveis, me vi, já na segunda metade da minha gestação, presa a um cenário progressivamente desconfortável. Enquanto a ideia daquilo que eu acreditava se tornava cada vez mais distante, eu me sentia cada vez mais desconectada de mim mesma. Todo aquele trâmite padronizado que domina a indústria de partos no nosso país não me representava de forma alguma. Eu simplesmente sabia que precisava ser assistida por alguém que estivesse 100% alinhado com a minha visão e, foi então que, agarrada à minha intuição, juntei os caquinhos de força que uma grávida de sete meses pode ter e me lancei na intensa busca por toda uma nova equipe.

É importante dizer o quão difícil e doloroso foi esse processo pra mim. A nossa médica era uma pessoa querida, super capaz, que nada tinha feito de errado e com quem nós já desenvolvíamos uma relação há alguns meses. Meu marido tinha todos os argumentos lógicos do mundo pra me mostrar o quão louca era a minha ideia e não escondia a incompreensão da minha decisão. Sofri bastante com esse nosso desencontro e fiquei até doente nas semanas que seguiram – por mais que quem parisse fosse eu, eu não acreditava em tomar um caminho sem o meu companheiro de corpo e alma ao meu lado. Acontece que o meu fundamento não morava na razão. Eu apenas me sentia profundamente conectada com o meu feminino, com esse poder imenso que nos foi concedido. Não me achava diferente da elefanta que também grita na grande fratura que é deixar de ser um para virar dois. Aliás, nunca me senti tão parte do Universo, tão próxima à natureza. Aí sim morou a grande beleza da gravidez pra mim.

Parir é mesmo animalesco. Selvagem. Visceral. Tem cheiro de sangue e todos os mil fluidos que são expelidos dos nossos corpos. Ah, e também não é confortável. Nem previsível. E dói. Como dói! Se você não tem a disponibilidade pra confiar (na forma mais ampla da palavra) e olhar a vida em sua versão mais crua, vai ser difícil enxergar encanto nessa loucura toda. Hoje em dia, viver uma experiência natural ficou mesmo fora de contexto no mundo sanitário em que vivemos. As  mulheres são induzidas a acreditar que não dão conta do recado e a assistência ao parto, momento mais divino que ainda temos a oportunidade de vivenciar, foi dominada pela funcionalidade. Como resultado, a gente enfrenta essa triste impossibilidade de descobrirmos o nosso protagonismo, de nos fortalecer quando mais precisamos. Laura Gutman fala no seu A Maternidade e Encontra com a Própria Sombra sobre como atravessar rupturas tão importantes sem o devido envolvimento lhe parece um grande desperdício de vida, e eu não poderia concordar mais. Durante o meu trabalho de parto eu só conseguia pensar em todas as mulheres que cruzaram aquela passagem desde que o mundo é mundo. Pensava no tamanho da nossa fortaleza, tão escondida. Pensava em abraçar com orgulho cada uma de nós. Pensava em como os homens podem dominar a nossa sociedade enquanto nós passamos pela experiência mais poderosa que pode existir.

Estaria mentindo se dissesse não querer trazer a questão de todo um sistema que considero nocivo, mas é bom esclarecer que, exatamente por acreditar na singularidade de cada mulher e na intimidade desse momento que, a bandeira que realmente procuro levantar é a do auto-respeito. A importância de sermos verdadeiras com nossos princípios e limitações é imensa pra que não nos arrependamos. Eu sempre soube que não tinha o total controle do meu parto na mão, mas sabia que poderia delinear a condição mais favorável àquilo que eu acreditava. Na minha modesta opinião, a transição do bebê pro lado de fora da barriga é invariavelmente significativa e, pra que eu estivesse bem comigo, precisava saber que estava fazendo a minha parte em direção à minha ideia de cuidado.

Hoje, agradeço a mim mesma pela coragem de ter saído da minha zona de conforto, de ter lutado pelo que sentia ser o certo. Bento chegou em meus braços depois de 41 semanas de gestação, através de um conquistado parto vaginal. Com o mínimo de intervenção que me foi possível, da forma mais próxima ao meu ideal. No processo, nada que estivesse comprometendo a nossa saúde, só mesmo o tempo do meu filho que não estava alinhado às expectativas engessadas do mundo obstétrico. Não foi dentro da receitinha de bolo que determina o máximo de horas que um parto pode durar. Foi cansativo pra todo mundo (se não me engano rolaram uns abraços e até uns high-fives quando tudo terminou, rs). No final, além do meu marido (que, por fim, acabou embarcando da forma mais linda nessa jornada), eram cinco mulheres a minha volta, todos parindo comigo. Nos poucos momentos em que eu conseguia abrir os olhos, me lembro das expressões de concentração e do suor que também escorria pelos rostos daquelas que, por mais que não façam parte do meu dia-a-dia, por algumas (muitas) horas focaram as suas vidas em respeitar e me ajudar no momento mais surreal da minha existência. Girl power em sua mais bela forma e que eu nunca esquecerei de transmitir ao meu pequeno.

FOTOS Lauren Balingit

• thought you might also like •

  1. Silvia, 30 de janeiro de 2018 - 8:51

    Que texto belo e tocante! A gravidez está sendo mesmo um momento tão delicado, repleto de incertezas, definições, sutilezas, hormônios, poder e fragilidade. Tudo tão louco, misturado… Nem imagino como será quando a pequena chegar ao mundo…Como colocou, incrível o nosso espaço estar ainda reduzido em muitas áreas sendo que somos essa potência que gera uma vida, caramba! É muito poderoso isso, que a medida do tempo foi sendo tirado um pouco do nosso protagonismo, infelizmente…

  2. Ana, 30 de janeiro de 2018 - 10:09

    Que texto lindo, Gaby. Fico feliz de tu, mais uma vez, usar esse espaço para ser verdadeira e tão inspiradora. Como te disse uma vez, é um respiro em meio a tanto conteúdo irreal que a gente acaba consumindo no dia a dia.
    O Bento tem muita sorte de ter uma mãe com uma cabeça como a tua.
    Um beijo!

  3. Adriana, 30 de janeiro de 2018 - 11:30

    Emocionante e verdadeiro, como sempre.

  4. Lydia ALVES, 30 de janeiro de 2018 - 13:15

    Ufa!! Parir é uma maratona mesmo… E eu , como avó desse serzinho revolucionário de sua vida, e mãe dessa brilhante mente pensante, não poderia passar incólume por esse relato.

    Você, que me ensinou a ser mãe, está aprendendo as primeiras lições desse ato irresponsável e corajoso que é ingressar na maternidade. Digo irresponsável porque, em sã consciência, quem acredita que esse é o melhor dos mundos para colocar um ser tão visceralmente amado? Mas a natureza fala mais alto e a gente embarca nessa loucura com todo o coração.

    Minha (sua)primeira gravidez foi divina: filho ultra-desejado; saúde 100%, e no máximo, um pouco de azia.Estava tão segura que criei a convicção de nem querer saber o sexo do meu bebe. Estava plena!
    Foi exatamente no parto que se descortinaram as ilusões de que ser mãe pode ser fácil. Ali começou uma trilha sem volta de muita doação, resignação, e amor.

    Depois de um parto o mais natural possível para a época, sem maiores intervenções alheias, a chegada em casa, à realidade do dia-a-dia, sem qualquer ensinamento ou ajuda, me deixaram memórias inesquecíveis do quão assustada, insegura, e atrapalhada uma mulher pode se sentir.Convivi por algumas semanas com o monstruoso medo de não “dar conta do recado”, de fazer mal à minha filha, de ser incompetente, de não conseguir amamentar, de não ser a melhor mãe possível…
    Passei por diversas gangorras emocionais: desde sofrer calada até me apaixonar perdidamente pela minha Gabriella.
    Era um misto de êxtase e desespero. Um mescla de medo e segurança instintiva, tudo provido pela mãe das mães: a natureza.

    Apesar de clichê, cabe relembrar que maternidade, com todos os seus altos e baixos, é e sempre será, a maior expressão da força da natureza. Porque não é algo que se possa comparar com qualquer outro evento que venha acontecer na sua vida. A intensidade de tudo pelo que a gente passa: dor, amor, insegurança, medo, dúvidas ou encantamento, é absolutamente única.

    Esse vulcão chamado maternidade, tem custo alto, é irracional, e é sofrido. Mas por obra e graça divina, quando o seu bebe te olha e sorri, o nível de amor transcendente a razão, e sua alma, lá do fundo, te diz: “Esse amor é único. Sinta-se poderosa!”

    Amo você, meu bebe!!

  5. Heloisa, 30 de janeiro de 2018 - 19:03

    Maravilhosamente verdadeiro, “pra isso que eu pago a internet” rsrs

  6. Camila, 30 de janeiro de 2018 - 21:39

    Olá. Não sei como fui parar no seu Instagram… Mas agradeço ao universo por isso. Tenho uma bebê de 7 meses e passei esse tempo tentando entender o que se passava comigo e você me contemplou com esse texto lindo, cheio de verdade e sentimento. Obrigada, muito obrigada. E se eu não tivesse uma menina, que se chama Aurora, seria Bento o nome do meu menino. ❤️❤️❤️

  7. Adriele de Freitas Lima, 31 de janeiro de 2018 - 11:07

    Como sempre um belo relato – e eu sempre fico emocionada!!
    Que sorte a nossa de acompanhar alguém que é tão sensível e ao mesmo tempo verdadeira nas palavras.
    Saúde e felicidades para essa família linda <3

Leave a note

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *